domingo, 16 de julho de 2017

As actividades devem ser pensadas com aos alunos ou para eles?



Na perspetiva de que as atividades devem ser programadas para os alunos está implícita uma concepção de infância que toma as crianças ou os jovens como seres não ativos, sem capacidade de iniciativa e sem identidade. Esta perspetiva não os olha no presente, com a sua realidade concreta, mas como um produto de aprendizagens organizadas pelos adultos em função de um desígnio institucional de socialização. Consequentemente, as atividades por vezes são adequadas, outras vezes não são, porque não vão ao encontro das realidades culturais, cognitivas e às motivações das próprias crianças/jovens, entre outras razões.


Na perspetiva de que as atividades devem ser pensadas com os alunos, a partir dos seus interesses e participação, estamos perante uma conceção de infância que as olha no presente, com personalidade própria, pois estamos a dar-lhes a oportunidade de exprimirem o que sentem, da maneira que desejam. Neste tipo de atividade mais lúdica e não tão direccionada, o próprio processo da escolha é já uma actividade que é válida por si. 

É de facto muito importante que as crianças e os jovens exteriorizem a sua subjetividade, algo que vem de dentro das suas vivências, dos seus marcos de referência e não que é imposta do exterior. 

Maria José Araújo

Repressão ou demissão ?


Hoje vimos uma criança ser castigada e não fizemos nada!

Um debate a partir da obra de Bernard Defrance " Sanctions et discipline à l´école"
Uma obra que se dirige a todos aqueles que pensam que a escola se tornou incapaz de fazer com que os alunos cumpram as regras elementares de convivência social.


Castigar é uma pratica comum em educação.
O castigo, sobretudo com os mais novos, é uma pratica legitimada. Paradoxalmente não se reflete sobre o seu significado. Preferimos interrogar-nos sobre a legitimidade do que sobre a função e os mecanismos usados para  remeter a criança ao silêncio. 
A prática "de formas punitivas" nas instituições escolares nem sempre é debatida e os seus efeitos no processo educativo de uma criança não são conhecidos.

Faz o que te digo e pronto!

A criança castigada dificilmente tem direito de defesa ou compreensão.
Os adultos que não infringem a punição mas sabem que ela existe "assobiam para o lado".
A lei ao serviço das praticas educativas devia merecer a nossa atenção, desde logo porque a escola tem o dever de proteção àqueles que a frequentam. 
E, seria um beneficio para todos se o debate nos levasse a praticas de responsabilização e civilidade.

Como refere Bernard Défrance:  La querelle des "tolérants" et des "répressifs" taxés respectivement  par les adversaires de "laxistes" et de "réactionnaires" bat son plein. Il faut sortir de cet affrontement pour trouver terrain plus serein.
Esta questão tem de ser debatida no campo dos direitos e todos temos o dever de o fazer.

A obrigação dos educadores é serem isso mesmo: educadores!



Sonhar é preciso!


Onde se fala de gatos e de homens 
Manuel António Pina


Os meus gatos dormem durante a maior parte do dia (e, obviamente, durante a noite toda). Suspeito que os gatos têm um segredo, que conhecem uma porta para um mundo coincidente e feliz, por onde só se passa sonhando. Um mundo criado como Deus terá criado o nosso humano mundo, à sua desmesurada imagem. Porque os que sonham são deuses criadores. Os gatos sonham dormindo, os homens sonham fazendo perguntas e procurando respostas.
Mas os meus gatos dormem e sonham porque não têm fome. Teriam, se precisassem de procurar comida, tempo para sonhar? Acontece talvez assim com os homens. Como se o espírito criador fosse, afinal, prisioneiro do estômago. Talvez, então, a mesquinhez de propósitos da nossa vida coletiva radique, como nos querem fazer crer, no défice, e talvez o cumprimento das normas do pacto de estabilidade seja o único sonho que nos é hoje permitido.
E, contudo, dir-se-ia (e isto é algo que escapa aos economistas) que é o sonho, mais do que a balança de pagamentos, que alimenta a vida, e que os povos, como os homens, precisam de mais do que de números. Os próprios números têm (os economistas não o sabem porque a sua ciência dos números é uma ciência de escravos) o poder desrazoável de, não apenas repetir, mas sonhar o mundo.
Há anos que somos governados por economistas e o resultado está à vista. Talvez seja chegada a altura de ser a política (e o sonho) a dirigir a economia e não a economia a dirigir a política. Jesus Cristo «não sabia nada de finanças, / nem consta que tivesse biblioteca», e o seu sonho, no entanto, continua a mover o mundo.

JN, 09/11/2005

A autoridade não se impõe, conquista-se

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