Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Reabilitar o brincar das Crian;as

Expresso online publica noticia sobre Escola ~Tempo Inteiro
Expresso online

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Escola a Tempo Inteiro


Uma medida a pensar nos pais ou nas crianças?

A questão é muito simples:
1 - quando o pai e a mãe trabalham “Onde ficam as crianças”?
2 -quando pensamos na escola de que lado estamos? Da escola ou das crianças?

Em relação à primeira questão - é inegável que é uma medida socialmente útil e muito apoiada pelos pais e encarregados de educação, mas não por todos.
O horário da escola não serve a todos os pais porque muitos trabalham até às 19h. Alguns pais continuam a preferir outras soluções para os seus educandos (o ATL ou outras instituições educativas ou até a casa dos avós), porque consideram que é muito tempo para as crianças estarem num mesmo ambiente educativo; porque preferem que as crianças frequentem outro tipo de actividades ou simplesmente não têm opinião sobre o assunto.


Em relação à segunda questão : A resposta é mais complexa uma vez que a Escola estar aberta todo o dia pode ser excelente, se houver condições físicas e humanas para garantir o seu funcionamento.
No entanto, se as crianças estiverem todo o dia (8 a 9 h) num ambiente semelhante (normalmente é a sala de aula), marcadamente organizado em função de pressupostos educativos e sociais que secundarizam (para não dizer desprezam) os seus aspectos vitais e lúdicos, isso não é nada interessante para as crianças é aliás prejudicial, como todos bem sabemos. Se os aspectos escolares forem centrais na organização diária do seu tempo, é evidente que será necessário inverter a situação protegendo a liberdade das crianças que têm, em primeiro lugar e sobretudo, de brincar e organizar as suas brincadeiras. É urgente respeitar o brincar das crianças e reabilitar o sentido da actividade lúdica, pois o brincar é um comportamento que permite o conhecimento de si próprio, do mundo físico e social e dos sistemas de comunicação, o que poderá levar a considerar a actividade lúdica como intimamente relacionada com o desenvolvimento da criança.

Não se trata, propriamente, de colocar em causa a necessidade de ter a Escola aberta todo o dia ou até às 17h30, mas de precisar as práticas diárias, as actividades que lá se fazem com as crianças. É preciso garantir actividades de qualidade que vão ao encontro dos seus interesses.
Pelo trabalho que tenho feito noto que existe uma postura de vigilância sobre esse tempo das crianças e jovens, propondo soluções que vivem de uma certa ambiguidade entre aquilo que é aceite como socialmente correcto – aulas de inglês, ateliers, em regra escolares, entre outras actividades diferenciadas – e uma certa vontade de temperar e regular a autonomia das crianças. De facto, os adultos querem as crianças ocupadas e esquecem-se que as crianças que frequentam o lº ciclo são crianças muito pequenas, que estiveram toda a manhã ou toda a tarde a “trabalhar” na sala de aula, cumprindo o seu ofício de estudantes, e que precisam de descansar. É fundamental que descansem.
Os adultos têm de começar a acreditar que as crianças se sabem muito bem entreter a si próprias e que precisam somente que lhes seja criado o ambiente e as condições para que o possam fazer em segurança.
Apesar de considerar que há actividades muito interessantes e que algumas crianças, sobretudo as que vivem em ambientes social e culturalmente mais empobrecidos podem não ter outras oportunidades, considero que é justamente por não terem outras oportunidades que essas actividades lhes devem ser proporcionadas por profissionais com formação adequada e sobretudo formação pedagógica.



Quanto às Actividades de Enriquecimento Curricular, Se a principal razão da sua existência parece ser consolidar aprendizagens, o carácter repetitivo dos trabalhos escolares tal como o conhecemos não contribui para aumentar o seu interesse. Poder-se-á pedir a uma criança que passou várias horas na sala de aula com tarefas escolares, marcadamente de desenvolvimento intelectual, que as vá continuar no horário pós-escolar
Poder-se-á pedir a todas as crianças da mesma forma o mesmo tipo de trabalho diário após o horário escolar?

Estas medidas não podem partir só das necessidades dos pais têm de partir das necessidades e da felicidade das próprias crianças. Para que não se corra o risco de acabar de uma vez por todas com a infância.

Estas são algumas das imensas questões que se levantam hoje com esta medida.


A autoridade não se impõe, conquista-se